Nightbitch: a raiva feminina Pode e deve ser sentida

Quando uma mulher está consciente de tudo o que a oprime, mas é educada para engolir a raiva, focar-se em cuidar dos outros e justificar a desconsideração de que é alvo através da desvalorização de si própria, essa mulher transforma-se numa bitch.
Esta é a premissa de Nightbitch, de Rachel Yoder: uma obra de ficção literária feminista que cruza realismo mágico e horror psicológico. 

Livro Nightbitch Leitura de 3 estrelas

Uma mãe e dona de casa a tempo inteiro está completamente esgotada: a repetitiva monotonia dos seus dias, passados entre tarefas domésticas e cuidados com o filho de 2 anos, sufoca-a. Certa noite, tem uma explosão de raiva com o marido e o filho, e teme estar a perder o juízo. A partir daí, começa a notar algumas mudanças: cresce-lhe mais pêlo no corpo, os dentes ficam mais afiados e tem novos apetites. É agora constantemente assolada por sentimentos de raiva e a sua mente é invadida por urgentes perguntas.

Esta sinopse despertou-me logo a curiosidade e achei que tinha imenso potencial. Uma protagonista feminina é levada ao seu limite e toma consciência da imensidão da injustiça e frustração que sente. Apercebe-se de que há muito tempo que não tem espaço para existir e está desesperada por um espaço só seu. Afinal, este é um cenário perfeito para explorar várias temáticas da raiva feminina e, nesse aspeto, Nightbitch não falha. Gostava de olhar para duas delas com mais detalhe.

desigualdade na relação conjugal e trabalho invisível

Nightbitch ilustra bem como uma relação conjugal pode ser marcada por ausência, desigualdade e desvalorização emocional.

Um marido que passa a semana inteira ausente, no trabalho, sem vir a casa, soou-me um bocado anacrónico, ao início. No entanto, percebe-se rapidamente que esta ausência física tem o propósito de sublinhar o desligamento do marido da vida doméstica: mesmo quando está em casa, não está envolvido. 

Esse desligamento traduz-se num peso extra para tantas mulheres, que se sobrecarregam ao acumular tarefas domésticas continuamente. Talvez o aspecto mais perturbador desta dinâmica seja o facto de algumas terem já internalizado as justificações dos maridos: “ele está cansado”, “o trabalho dele é exigente”, “é ele que ganha mais dinheiro”… e então sacrificam-se eternamente para acomodá-los, em dinâmicas injustas. 

A submissão a este sacrifício infindável é fisicamente desgastante e também traz danos para a saúde mental. Aqui, entra um estereótipo já nosso conhecido: o de que as mulheres são “muito sensíveis” ou “histéricas”, que abre espaço para a desvalorização da sua experiência. As queixas das mulheres tendem a não ser levadas a sério: a área da saúde é um exemplo disso, onde muitos problemas poderiam ser tratados mais cedo se as pacientes fossem efetivamente ouvidas. 

Este marido oferece um exemplo de desvalorização em ambiente doméstico. Frio e objetivo, não se coíbe de usar um tom paternalista e autoritário com a esposa. Tem sempre o clássico “isso são coisas da tua cabeça” na manga para invalidar e minar, a pouco e pouco, a confiança da esposa na sua própria percepção da realidade.

Ainda que não participe no cuidado do filho ou na vida doméstica, este marido questiona, julga e comenta — e não é pouco. Fazendo uso de uma comunicação autoritária e condescendente, que não procura compreender, mas controlar e encerrar qualquer possibilidade de diálogo.

Talvez esteja a passar demasiado tempo a ler histórias no Reddit, mas acho que a melhor solução para este casal teria sido o divórcio.

Capitalismo e produtividade

Não é só o marido que desvaloriza o trabalho doméstico. Como o trabalho que ocupa os dias de Nightbitch não gera salário, também não lhe confere estatuto social. É, então, tratado como uma extensão “natural” do seu papel enquanto mulher — e mãe.

Não deixa de ser curioso que a escolha de ser uma mãe presente seja dissimuladamente condenada. Se, por um lado, a maternidade lhe é exigida (como se fosse a sua função primordial), por outro, é mal vista se for escolhida em detrimento da produtividade.

A visão de um sistema que exige produção constante acaba por contaminar a percepção da mulher do seu próprio valor, num mundo em que nos definimos pela profissão que exercemos. Em consequência disso, a sua autoestima ressente-se.

Esta obsessão com a produtividade intromete-se entre a pessoa e aquilo que o corpo lhe pede. Quem nunca sentiu vontade de se deitar sem fazer nada, de olhar para o vazio por dez minutos, e imediatamente sentiu culpa? A pausa é vista como fraqueza, como falha moral.

É neste conflito — entre um corpo que reclama humanidade e um sistema que só reconhece produtividade — que a transformação da protagonista ganha força simbólica. Tornar-se animal, instinto, corpo puro, é também uma forma radical de recusa: uma rejeição de um mundo que só atribui valor a quem nunca pára.

Vale a pena ler Nightbitch?

A resposta a esta pergunta depende do tipo de leitora que és.

Nightbitch tem uma sinopse promissora e uma tese poderosa. A metáfora é eficaz e o livro é muito competente a ilustrar temas como o trabalho invisível, a desigualdade conjugal e a jornada da mulher desde a tomada de consciência das forças opressoras até à reivindicação dos seus direitos e espaço na sociedade. No entanto, o desenvolvimento ficou, na minha opinião, aquém das suas possibilidades.

Este livro ronda as 300 páginas; é curto, mas ainda assim consegue arrastar-se demasiado. A frustração e aborrecimento que atravessam a vida da protagonista são tais, que contagiam. A leitura é, ela própria, uma experiência frustrante — aborrecida, até! — o que pode ser intencional, mas nem sempre se traduz em profundidade narrativa ou evolução das personagens. Nightbitch podia mesmo ter sido só uma short story.

A conclusão surge de forma apressada, com algumas incongruências que quebram a coerência. Dá a sensação de atalho narrativo, como se o livro tivesse pressa em terminar sem explorar plenamente as consequências do que foi posto em causa.

Dito isto, Nightbitch continua a ser uma leitura relevante — sobretudo para quem se interessa por ficção feminista, crítica social e narrativas que desafiam o ideal da maternidade feliz e silenciosa. Não é um livro para quem procura personagens complexas ou arcos narrativos refinados, mas pode ser profundamente impactante para quem se reconhece nos temas que levanta.

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