Não há Feminismo sem interseccionalidade

Mikki Kendall não é a feminista calma e equilibrada: é a que vem fazer a sala tremer. Em Hood Feminism, mostra-nos como o feminismo contemporâneo negligencia as necessidades das mulheres marginalizadas. A falta de interseccionalidade transforma um movimento supostamente universal num espaço seletivo, onde só contam algumas experiências.

O mais impactante do livro é que, à primeira vista, grande parte dos assuntos são já nossos conhecidos: habitação, fome, justiça reprodutiva… Mas eis que, de repente, Mikki abre uma janela para uma perspetiva nova: a das pessoas marginalizadas.

Livro Hood Feminism: Feminismo e interseccionalidade

O que é interseccionalidade?

A interseccionalidade é a noção de que estamos expostos a diferentes tipos de discriminação e opressão ao mesmo tempo. 

Pensa em como as diferentes características de alguém (género, classe social, orientação sexual) geram diferentes preconceitos. Esses preconceitos acumulam-se e afetam em simultâneo as experiências quotidianas das suas vítimas.

Imagina, por exemplo, as várias camadas de descriminação a que está sujeita uma mulher trans e negra:

  • Sofre de racismo, pelo seu tom de pele: é seguida por um segurança numa loja, sem qualquer motivo; a sua pronúncia é reproduzida jocosamente por pessoas brancas;
  • Transfobia, pela sua identidade de género: é tratada pelo nome errado, de forma intencional; é excluída de processos de recrutamento pela sua identidade de género;
  • Vive sexismo, por ser mulher: é interrompida com mais frequência em reuniões ou meras conversas; é expectável que seja mais “cuidadora” ou “compreensiva”.

A sociedade em que vivemos acumula preconceitos, e uma só interação pode conjugar vários deles. É importante reconhecer as diferentes vivências e considerá-las sempre.

Se estás sempre a ouvir isto e ainda não percebeste bem, este livro explica-te tudo de forma direta e eloquente. Para te dar mais contexto e aguçar a tua curiosidade, deixo-te o resumo de alguns tópicos abordados em Hood Feminism:

Educação e Interseccionalidade: Um sistema que falha antes de ensinar

Se há quem acredite que os níveis de insucesso escolar nas comunidades marginalizadas se devem a falta de esforço ou interesse, esta leitura promete um choque de realidade.

A autora mostra como o sistema educativo prefere vigilância e punição a apoio e incentivo. Isto não motiva as crianças em situações de vulnerabilidade, que acabam, muitas vezes, por abandonar a escola.

Para ilustrar este ponto, Mikki Kendall conta-nos duas histórias: a de DeonJ, e a de LaToya.

deon J

@lerequefaltava

Em vez de acreditarmos que os pobres degradam os serviços públicos, olhemos para os sistemas que degradam as suas vidas. Este é um excerto do livro Hood Feminism de Mikki Kendall, uma leitura brutal, urgente e muito informativa. #feministliterature #feminism #booksonfeminism #intersectionalfeminism

♬ som original – Carolina | Booktok 📚

La Toya

Violência armada e feminismo

Quando penso em violência armada, associo imediatamente o problema aos massacres em escolas nos Estados Unidos. Mikki sabe-o, e por isso mesmo discute como o feminismo mainstream raramente aborda esse tema.

A autora desconstrói a ideia de que a violência armada se aproxima mais de questões de “segurança pública” do que de género. Convida-nos a pensar nos números crescentes da violência doméstica e a perguntarmo-nos o que acontece quando há uma arma por perto.

Aliás, não é preciso perguntar: ela apresenta-nos os dados concretos e conta-nos uma história real.

ler o Patriarcado através da interseccionalidade

O patriarcado é um inimigo old-school, não? Contudo, a autora não deixou de me surpreender com uma perspetiva nova.

Por exemplo:

Um homem negro, marginalizado, é oprimido por pobreza e racismo fora de casa. Este homem, apesar de ser vítima destas forças externas, pode exercer autoridade patriarcal na comunidade, ou até dentro de casa. Desta forma, encontra uma espécie de escape para as agressões a que está exposto de forma repetida.

É crucial entender que estas dinâmicas resultam de causas estruturais, mas entender não significa perdoar. Devemos encarar estas questões complexas com uma postura empática e consciente.

A Fome também é uma questão feminista

A insegurança alimentar também é uma questão feminista: quando mulheres não têm acesso consistente a comida nutritiva, isso afeta a sua saúde, a sua dignidade e as suas escolhas de vida.

A forte opressão da pobreza e da fome não pode ser subestimada. Os números revelam que estas afetam maioritariamente pessoas racializadas e marginalizadas. 

Tal deve-se, por exemplo, a discriminação racial e de género no acesso a emprego, o que empurra estas pessoas para para salários mais baixos e trabalho precário.

A Fetichização do Fierce

Se também pensaste na Beyoncé, óptimo! Ela é um bom exemplo de como a sociedade tem tendência a usar adjetivos como “forte” ou “destemida” para mulheres negras. Mikki Kendall justapõe esta tendência à narrativa popular de que mulheres negras “aguentam tudo”, são mais fortes e resistentes e que, por isso, não precisam de ajuda. O resultado destas duas tendências é a maior vulnerabilização de mulheres racializadas e a negligência das suas necessidades reais de suporte.

Conclusão

Ainda que possas achar repetitivo, eu digo mais uma vez: pessoas racializadas ou marginalizadas estão mais vulneráveis neste tipo de situações. Lê outra vez.

Podia continuar, mas acredito que, se leste até aqui, deves mesmo pegar neste livro. Se tens interesse por feminismo, Hood Feminism é uma referência incontornável que te vai deixar muito mais informada e capaz de ter uma discussão produtiva.

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